Qual o melhor preenchedor labial de ácido hialurônico?
Um guia baseado em evidências científicas: o que a reologia determina, como as tecnologias de reticulação definem o comportamento do produto, o que existe no Brasil e no mundo, e por que o Brasil é referência global em preenchimento labial.
Não existe um “melhor preenchedor labial” em termos absolutos. Existe o produto com o perfil reológico mais adequado para o objetivo clínico de cada paciente — e essa distinção é o que a literatura científica estabelece como critério central de seleção. Este artigo reúne o que há de mais consolidado na evidência publicada sobre preenchedores labiais de ácido hialurônico: da ciência do gel à prática clínica, do cenário brasileiro ao panorama global.
| NESTE ARTIGO01 O ácido hialurônico e a região labial02 O que é reologia e por que define a escolha do produto03 Os quatro parâmetros reológicos fundamentais04 Tecnologias de reticulação: como cada processo modifica o gel05 Panorama global: o que existe no mundo06 O Brasil como referência técnica internacional07 Critério de escolha por objetivo clínico08 Segurança, duração e o que esperar09 Perguntas frequentes |
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1. O ácido hialurônico e a região labial
O ácido hialurônico (AH) é um glicosaminoglicano de ocorrência natural no organismo humano — componente estrutural fundamental da matriz extracelular da pele, das articulações e dos tecidos conjuntivos. Sua capacidade de reter água é extraordinária: cada grama de AH pode ligar até mil mililitros de água,[1] o que o torna o principal agente hidratante endógeno do tecido cutâneo.
Na região labial especificamente, a concentração de AH decresce de forma progressiva a partir da terceira década de vida. Estudos histológicos demonstram que esse processo é acelerado por exposição actínica crônica, tabagismo e pela elevada mobilidade biomecânica da região — lábios executam entre 1.500 e 2.000 movimentos articulatórios por dia entre fala e expressão facial.[2] A redução de AH nativo se manifesta clinicamente como perda de volume labial, adelgaçamento do vermelhão, diminuição do turgor e surgimento de linhas periorais finas.
| POR QUE AH E NÃO OUTROS MATERIAIS?O ácido hialurônico reticulado é, atualmente, o único material injetável para preenchimento labial com antídoto específico disponível: a hialuronidase enzimática, capaz de degradá-lo em horas. Essa propriedade de reversibilidade o distingue clinicamente de todos os demais preenchedores e fundamenta sua posição como substância de primeira escolha para a região, conforme consenso publicado pela International Society of Aesthetic Plastic Surgery.[3] |
Os géis de AH utilizados em procedimentos estéticos não são AH nativo — são AH reticulado. A reticulação (cross-linking) é o processo químico que cria ligações covalentes entre as cadeias poliméricas do AH, transformando a molécula de uma substância viscoelástica de baixa viscosidade em um gel tridimensional com propriedades mecânicas específicas e duráveis.[4] São essas propriedades mecânicas — e não o nome da marca — que determinam como o produto se comporta no tecido labial.
| PARA O PACIENTE ENTENDERO ácido hialurônico puro é como água. O processo de reticulação transforma essa “água” num gel — que pode ser mais mole ou mais firme, mais fluido ou mais consistente. A consistência do gel determina diretamente se o resultado vai parecer natural e acompanhar seus movimentos, ou se vai ficar rígido e artificial. É por isso que o produto escolhido pelo profissional importa tanto quanto a técnica usada.E porque é feito de uma molécula que o próprio corpo produz, o organismo absorve o preenchedor gradualmente ao longo dos meses — sem necessidade de remoção cirúrgica. |
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2. O que é reologia e por que define a escolha do produto
Reologia é o ramo da física que estuda o fluxo e a deformação de materiais sob a ação de forças mecânicas. Aplicada aos preenchedores de AH, é a disciplina que descreve como o gel se comporta quando submetido às forças que encontra no tecido vivo: pressão de injeção, movimento muscular, temperatura corporal, tração e compressão.
A relevância clínica da reologia foi formalmente estabelecida por Sundaram e Cassuto em 2013, em publicação seminal que demonstrou a correlação direta entre os parâmetros reológicos dos preenchedores e os desfechos estéticos e de segurança observados clinicamente.[5] Desde então, a literatura acumulou evidências suficientes para consolidar o critério reológico como o padrão técnico de seleção de preenchedores — substituindo a escolha baseada exclusivamente em marca ou em grau de reticulação.
| PARA O PACIENTE ENTENDERQuando você pergunta ao seu injetor “qual produto você vai usar?”, a resposta que demonstra preparo técnico não é um nome de marca — é uma explicação sobre por que aquele produto específico tem o comportamento mecânico adequado para o seu objetivo e para a sua anatomia labial. Profissionais que escolhem por critério reológico tomam decisões baseadas em ciência, não em hábito ou relação comercial com fornecedores. |
“A seleção de preenchedores com base em propriedades reológicas — em vez de marca ou volume — representa a evolução mais significativa na prática de preenchimento labial na última década.”
Dra. Vitória Ariella · Instituto Belle HOF
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3. Os quatro parâmetros reológicos fundamentais
A literatura científica estabelece quatro parâmetros primários para a caracterização reológica de preenchedores de AH. Cada um impacta aspectos distintos do resultado clínico e da segurança do procedimento labial.[5,6]
| Parâmetro | O que mede | Impacto clínico no lábio | Faixa preferencial |
| G-Prime (G’)Módulo elástico | Rigidez do gel — resistência à deformação sob força aplicada | G’ elevado → sustentação e projeção, mas resistência ao movimento natural. G’ baixo → produto acompanha a mobilidade labial com menor resistência | Baixo a moderado — região de alta dinâmica |
| G” / Tan δMódulo viscoso | Componente viscoso do gel — capacidade de dissipar energia mecânica | Equilíbrio entre G’ e G” determina o comportamento viscoelástico real. Predominância viscosa favorece distribuição suave no tecido | Equilíbrio viscoelástico adequado |
| Coesividade | Resistência à fragmentação — integridade do gel após injeção | Alta coesividade → produto permanece localizado, menor risco de migração. Baixa coesividade → fragmentação e dispersão no tecido perioral | Alta — região com elevada mobilidade |
| Viscosidade (η*) | Resistência ao fluxo durante a injeção | Impacta técnica de injeção — calibre de agulha, velocidade e pressão necessárias. Alta viscosidade dificulta injeção com agulhas finas | Variável segundo técnica e plano de aplicação |
| Parâmetros baseados em: Sundaram & Cassuto (2013); Kablik et al. (2009); Öhrlund et al. (2019). Valores específicos por produto variam entre fabricantes. | |||
Por que G-Prime baixo é preferencial para lábios
A região labial é biomecânicamente singular: apresenta deslocamento tridimensional contínuo durante fala, mastigação, sorrisos e movimentos involuntários. Estudos de eletromiografia facial demonstram contração muscular perioral mesmo durante o repouso relativo.[2] Preenchedores com G-Prime elevado, ao resistirem à deformação, geram força de reação perceptível ao toque e visível no movimento — o fenômeno clinicamente descrito como “rigidez labial” ou resultado “não natural”.
A evidência publicada é consistente: para regiões de alta mobilidade dinâmica, preenchedores com G-Prime moderado a baixo associados a alta coesividade produzem desfechos com maior naturalidade e menor taxa de efeitos adversos relacionados ao produto.[6,7]
| O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICASe você já viu lábios que parecem “duros”, que não se movem naturalmente ao falar, ou que têm aspecto “inflado” — em muitos casos, isso decorre do uso de um produto com G-Prime excessivo para a indicação. A ciência existente para evitar esse resultado é bem estabelecida. O profissional que a conhece e a aplica entrega resultados consistentemente mais naturais. |
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4. Tecnologias de reticulação: como cada processo modifica o gel
O processo de reticulação é determinante para as propriedades finais do gel — e diferentes tecnologias produzem perfis reológicos substancialmente distintos, mesmo a partir do mesmo substrato de AH. A compreensão dessas diferenças é o segundo pilar técnico da seleção racional de preenchedores.[4,8]
| Tecnologia | Princípio do Processo | Perfil Reológico | Implicação Clínica para Lábios |
| BDDE monofásicoReticulação com BDDE, processo único | Ligações cruzadas com 1,4-butanodiol diglicidil éter em matriz homogênea de cadeias de peso molecular similar | G’ moderado a alto, coesividade variável conforme grau de reticulação. Produto firme e sustentado | Indicado para projeção e definição de contorno labial. Requer técnica precisa para evitar sensação de rigidez |
| Cadeias mistasex: Vycross® | Combinação de cadeias de AH de alto e baixo peso molecular antes da reticulação — maior eficiência com menor quantidade de agente reticulante | G’ baixo com alta coesividade. Produto fluido mas coeso, com menor edema pós-injeção documentado[9] | Perfil favorável para definição sutil, hidratação labial e volume natural com menor inchaço pós-procedimento |
| OBT — Optimal Balance TechnologyIntegração ao tecido nativo | Processo de reticulação que incorpora AH não reticulado ao gel reticulado, favorecendo integração com o AH nativo do tecido receptor | Alta flexibilidade mecânica, G’ baixo, comportamento adaptativo ao movimento[10] | Elevada resiliência dinâmica — produto adapta-se à movimentação labial. Indicado para volume com alta naturalidade de movimento |
| CPM — Cohesive Polydensified Matrix | Reticulação em diferentes densidades dentro da mesma matriz — zonas de maior e menor reticulação no mesmo gel | Distribuição suave e homogênea no tecido, G’ baixo, alta integração superficial[11] | Indicado para hidratação profunda e linhas finas periorais — não para volume expressivo |
| RHA — Resilient Hyaluronic AcidAH resiliente | Processo de reticulação mais suave que preserva a integridade das cadeias longas nativas da molécula (menos calor, menos BDDE) | Alta resiliência dinâmica — o gel deforma-se e recupera sua forma com menor resistência. Propriedades mecânicas próximas ao AH nativo[12] | Tecnologia desenvolvida especificamente para regiões de alto dinamismo. Menor interferência com expressão facial. Aprovado FDA em 2020 para regiões dinâmicas |
| Os nomes de tecnologias identificadas (Vycross, OBT, CPM, RHA) são termos técnicos publicados na literatura científica, não constituem recomendação de marca específica. | |||
A tendência científica: resiliência dinâmica sobre rigidez estática
A evolução tecnológica dos preenchedores labiais nas últimas duas décadas revela um vetor consistente: da rigidez estática para a resiliência dinâmica. Os primeiros géis de AH reticulado priorizavam G-Prime elevado para maximizar sustentação. A literatura acumulada sobre desfechos em regiões de alta mobilidade demonstrou que essa abordagem produzia resultados funcionalmente comprometidos — e a indústria respondeu com tecnologias progressivamente mais adaptadas ao dinamismo facial.[8,12]
O conceito de AH resiliente, formalizado por Teoxane com a linha RHA e aprovado pela FDA norte-americana em 2020, representa o estado da arte atual: géis cujo comportamento mecânico é suficientemente próximo ao AH nativo para se comportar como extensão do tecido receptor, não como corpo estranho dentro dele.[12]
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5. Panorama global: o que existe no mundo
O mercado global de preenchedores de AH para uso labial é substancialmente mais amplo do que qualquer mercado nacional isolado. Produtos aprovados pela FDA (Estados Unidos), CE Mark (Europa), KFDA (Coreia do Sul) e TGA (Austrália) passam por processos regulatórios distintos — com exigências e prazos que diferem consideravelmente e determinam quando e se cada produto estará disponível em cada território.
Conhecer o panorama global é relevante por três razões clínicas objetivas: permite ao profissional contextualizar a evolução tecnológica do campo, orienta pacientes que realizam procedimentos fora do Brasil, e estabelece o referencial científico correto para avaliar inovações à medida que chegam ao mercado nacional.
| Tecnologia / Categoria | Aprovação Regulatória | Perfil Reológico | Diferencial Técnico |
| Géis monofásicos BDDE — alta reticulação | FDA, CE Mark, ANVISA | G-Prime moderado a alto, coesividade variável | Tecnologia mais amplamente disponível. Longa história de segurança publicada. Base técnica da maioria dos estudos de longo prazo |
| Cadeias mistas (tipo Vycross®) | FDA, CE Mark, ANVISA | G-Prime baixo, alta coesividade, menor edema pós-injeção | Redução documentada de edema vs. géis convencionais. Indicação preferencial para volume com naturalidade |
| Tecnologia OBT | FDA, CE Mark, ANVISA | Alta flexibilidade, adaptação ao tecido nativo | Integração com AH nativo favorece naturalidade de movimento. Amplamente estudada para região labial |
| Matriz polidensificada (CPM) | CE Mark, ANVISA | Distribuição homogênea, G-Prime muito baixo | Indicação específica para superficial — hidratação e linhas periorais finas. Não adequada para volume |
| AH resiliente — RHA (tipo Teosyal RHA) | FDA, CE Mark(Processo ANVISA não concluído) | Alta resiliência dinâmica, G-Prime próximo ao AH nativo | Estado da arte para regiões de alta mobilidade. Menor interferência com expressão facial. Aprovado FDA em 2020 para regiões dinâmicas |
| Géis com manitol antioxidante (tipo Stylage®) | CE Mark(Não disponível ANVISA) | Similar a BDDE convencional + ação antioxidante | Adição de manitol como scavenger de radicais livres — hipótese de maior durabilidade por menor degradação oxidativa. Evidências em expansão |
| Géis de origem coreana (KFDA) | CE Mark, KFDA(Seleção ANVISA disponível) | Variável por produto — amplo espectro de G-Prime disponível | Desenvolvimento fortemente orientado por anatomia labial asiática. Crescente literatura clínica publicada em inglês e coreano |
Regulação e rastreabilidade: o critério que precede qualquer escolha técnica
Antes de qualquer critério reológico, o primeiro requisito inegociável para um preenchedor labial é o registro regulatório ativo no país de aplicação. No Brasil, esse registro é concedido pela ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária — após avaliação de segurança, eficácia e qualidade de fabricação.
| ⚠ SEGURANÇA REGULATÓRIA — PARA PROFISSIONAIS E PACIENTESProdutos sem registro ANVISA não passaram pelo processo de avaliação de segurança brasileiro. O uso de preenchedores importados paralelamente — sem registro ativo no país — constitui infração sanitária, implica responsabilidade jurídica para o profissional e representa risco clínico real ao paciente por ausência de rastreabilidade de lote. A FDA norte-americana emitiu alertas formais sobre preenchedores não autorizados circulando em mercados informais, incluindo produtos falsificados com rótulos de marcas legítimas.[13] |
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6. O Brasil como referência técnica internacional
O Brasil ocupa posição singular no cenário global de procedimentos estéticos injetáveis. Com aproximadamente 3,1 milhões de procedimentos anuais, o país é o segundo maior mercado mundial do setor, superado apenas pelos Estados Unidos.[14] Mas o que fundamenta sua relevância técnica internacional não é o volume — é a diversidade anatômica sobre a qual os profissionais brasileiros constroem sua experiência clínica.
| VANTAGENS TÉCNICAS DO CONTEXTO BRASILEIRO◆ Maior diversidade fenotípica labial do mundo — profissionais brasileiros atendem lábios com geometrias, volumes, espessuras e substratos étnicos completamente distintos, construindo repertório adaptativo sem equivalente em mercados homogêneos[15]◆ Regulação ANVISA com exigências técnicas rigorosas — processo de registro que inclui dados de segurança, eficácia clínica e controle de qualidade de fabricação◆ Alta exigência do paciente brasileiro — cultura estética sofisticada que força o profissional a resultados consistentemente naturais e a elevada capacidade de distinção entre resultados mediocres e excelentes◆ Volume de casos por profissional — exposição a maior número e diversidade de anatomias em menor tempo de prática, acelerando o desenvolvimento de repertório clínico◆ Participação ativa na produção científica global — autores brasileiros contribuem regularmente para os principais periódicos de estética injetável, incluindo Dermatologic Surgery e Aesthetic Surgery Journal | O QUE O CONTEXTO BRASILEIRO EXIGE DO PROFISSIONAL◆ Domínio de anatomia variável — não existe um padrão único de lábio brasileiro. A diversidade fenotípica exige que o injetor compreenda como o produto se comporta em substratos teciduais distintos: diferenças de espessura do vermelhão, de proporção entre lábio superior e inferior, de mobilidade muscular e de vascularização superficial◆ Capacidade de calibrar volume com precisão — o paciente brasileiro tem alta sensibilidade para volumes excessivos. A linha entre “melhorado” e “operado” é estreita e exige domínio técnico refinado◆ Conhecimento atualizado da regulação — a legislação sobre harmonização orofacial no Brasil envolve múltiplos conselhos (CFM, CFO, CFF, CFBio) com competências distintas sobre os diferentes profissionais habilitados |
Esse contexto transforma o Brasil em um laboratório clínico de validação sem equivalente global: o profissional que desenvolve excelência técnica sobre a diversidade anatômica brasileira possui um repertório adaptativo que funciona em qualquer mercado do planeta. É essa premissa que fundamenta a crescente presença de palestrantes brasileiros nos maiores congressos internacionais de estética injetável — AMWC (Mônaco), Aesthetic & Anti-Aging Medicine World Congress (Las Vegas), IMCAS (Paris) e outros.
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7. Critério de escolha por objetivo clínico
A seleção do preenchedor labial mais adequado parte sempre de uma avaliação clínica individual — não de um protocolo fixo. Os dados a seguir sintetizam o que a literatura estabelece como correlação entre objetivos clínicos frequentes e perfis reológicos indicados, independentemente de marca.[5,6,7]
| Objetivo Clínico | Perfil Reológico Indicado | Tecnologia Preferencial | O que evitar |
| Hidratação e turgor sem alteração de volume | G’ muito baixo, alta fluidez, distribuição superficial | CPM ou cadeias mistas de baixa densidade | Qualquer produto com G’ moderado a alto — gera volume indesejado |
| Definição de contorno e vermelhão | G’ moderado, alta coesividade — sustentação localizada | BDDE monofásico de média densidade ou cadeias mistas | G’ muito baixo — não sustenta definição de borda labial |
| Aumento de volume com naturalidade de movimento | G’ baixo a moderado, alta coesividade, alta resiliência dinâmica | OBT ou RHA — tecnologias de integração ao tecido | G’ elevado — compromete mobilidade e produz aspecto artificial |
| Projeção labial expressiva | G’ moderado, coesividade alta, boa sustentação estrutural | BDDE monofásico de média a alta densidade | G’ muito baixo — produto não sustenta o volume projetado no plano profundo |
| Atenuação de linhas periorais finas | G’ muito baixo, distribuição superficial, máxima fluidez | CPM ou cadeias mistas de baixíssima densidade | Qualquer produto de G’ alto no plano superficial — risco de efeito degrau visível |
| Correção de assimetria labial | Coesividade muito alta, G’ ajustado por subregião | Tecnologias com alta coesividade documentada | Produtos de baixa coesividade — migração pode acentuar assimetria |
Para o profissional: o framework de avaliação pré-procedimento
A escolha do produto correto exige, antes da seleção reológica, uma avaliação anatômica sistemática do paciente. Os parâmetros que a literatura indica como determinantes para a decisão incluem:[6]
◆ Espessura do vermelhão: lábios com vermelhão muito fino têm menor tolerância a G-Prime elevado — o produto se torna palpável e visível mais facilmente
◆ Proporção vertical: a proporção áurea clínica descreve razão de 1:1,6 entre lábio superior e inferior — desvios significativos orientam qual segmento deve receber maior volume
◆ Tônus muscular perioral: pacientes com tônus elevado degradam o AH mais rapidamente e podem requerer produto de maior durabilidade ou sessões mais frequentes
◆ Histórico de preenchimentos anteriores: AH residual de procedimentos anteriores altera a resposta ao produto — acúmulo progressivo pode exigir dissolução prévia com hialuronidase para resultado previsível
◆ Condições associadas: herpes labial recorrente ativo, lesões periorais ativas e uso de anticoagulantes são condições que modificam protocolo ou contraindicam o procedimento em determinado momento
| PARA O PACIENTE — O QUE ESPERAR DE UMA BOA AVALIAÇÃOAntes de qualquer procedimento, o profissional deve examinar os seus lábios com atenção — tocando, observando em repouso e em movimento, perguntando sobre histórico de procedimentos anteriores e condições de saúde relevantes. Uma consulta que termina em decisão de produto em menos de cinco minutos raramente incluiu a avaliação que a decisão exige. |
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8. Segurança, duração e o que esperar do procedimento
Duração: os fatores que a literatura identifica
A variação de 6 a 18 meses reportada para preenchedores de AH labial não é imprecisão clínica — reflete a interação de variáveis individuais e do produto com o metabolismo do AH. Os fatores com evidência mais consistente na literatura incluem:[4,16]
◆ Dinâmica regional: os lábios degradam AH mais rapidamente que regiões menos móveis — a hidrólise mecânica pelo movimento contínuo se soma à degradação enzimática pelo hialuronidase endógeno
◆ Grau de reticulação: produtos com maior densidade de ligações cruzadas apresentam maior resistência à degradação enzimática — mas o aumento de reticulação eleva o G-Prime, gerando o tradeoff entre durabilidade e naturalidade
◆ Volume aplicado e plano de injeção: volumes menores distribuídos em planos superficiais degradam mais rapidamente que volumes maiores em plano subdérmico
◆ Metabolismo individual: taxa de renovação do AH nativo, estilo de vida, hidratação sistêmica e variações hormonais influenciam a velocidade de degradação do AH exógeno
◆ Acúmulo progressivo: em pacientes com histórico de preenchimentos regulares, pode ocorrer acúmulo de AH residual que altera a cinética do produto subsequente
Eventos adversos: classificação e manejo
Os eventos adversos associados ao preenchimento labial de AH são classificados pela literatura em imediatos, precoces e tardios, com mecanismos e abordagens distintos.[17]
| Categoria | Evento | Mecanismo | Manejo |
| Imediatos (0–24h) | Edema, eritema, equimose, dor | Resposta inflamatória fisiológica à injeção | Expectante — resolução espontânea em 5–14 dias. Compressas frias nas primeiras horas |
| Imediatos — EMERGÊNCIA | Palidez intensa localizada, dor desproporcional, cianose de distribuição vascular | Oclusão vascular — compressão ou injeção intravascular de AH | Emergência clínica — hialuronidase imediata, protocolo de desobstrução vascular. Todo profissional deve ter hialuronidase disponível no consultório |
| Precoces (1–14 dias) | Nódulos palpáveis, assimetria por edema assimétrico | Distribuição irregular do produto, edema diferencial | Aguardar resolução do edema antes de avaliar. Nódulos persistentes podem requerer massagem ou hialuronidase |
| Tardios (semanas–meses) | Reações granulomatosas, nódulos tardios, migração | Resposta imune ao produto, degradação incompleta, produto de baixa coesividade | Avaliação por especialista — hialuronidase ou corticoterapia conforme etiopatogenia confirmada |
| Classificação adaptada de: Funt & Pavicic (2013), Dermatologic Surgery; DeLorenzi (2014), Aesthetic Surgery Journal. | |||
| ⚠ HIALURONIDASE — O CRITÉRIO INEGOCIÁVEL DE SEGURANÇATodo profissional que realiza preenchimento com AH deve ter hialuronidase disponível no consultório e dominar seu protocolo de aplicação. A oclusão vascular, embora rara, é uma emergência com janela de tratamento estreita — a literatura estabelece que a reversão dentro das primeiras horas após o evento é determinante para o desfecho.[17] A ausência de hialuronidase não é uma falha administrativa: é uma falha de segurança do paciente. |
| O QUE É NORMAL E O QUE REQUER ATENÇÃO IMEDIATAEsperado nos primeiros dias: inchaço (frequentemente assimétrico nas primeiras 48h), vermelhidão no local das injeções, equimoses, sensibilidade ao toque. O resultado final só pode ser avaliado após resolução completa do edema — em geral, entre 7 e 14 dias.Procure o profissional imediatamente: palidez (branqueamento) de qualquer ponto do lábio ou ao redor, dor intensa e progressiva após o procedimento, surgimento de manchas azuladas ou escurecimento de pele nas horas seguintes, ou qualquer sensação de dormência progressiva. Esses sinais podem indicar comprometimento vascular e exigem avaliação imediata. |
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9. Perguntas frequentes
Qual a diferença entre preenchimento e hidratação labial?
São procedimentos com objetivos e produtos distintos. O preenchimento labial utiliza géis de AH reticulado com G-Prime suficiente para adicionar volume, definição ou estrutura — altera o contorno e a projeção. A hidratação labial profunda (skinbooster labial) utiliza produtos com G-Prime muito baixo ou AH não reticulado, que aumentam a hidratação intrínseca do tecido sem alterar volume. Muitos protocolos combinam as duas abordagens na mesma sessão, utilizando produtos com perfis reológicos distintos para planos diferentes.[7]
Por que o edema após preenchimento labial é maior do que em outras regiões?
A região labial possui alta densidade de mastócitos e elevada vascularização superficial, o que produz resposta inflamatória mais expressiva à injeção em comparação com regiões menos vascularizadas. Estudos histológicos confirmam que o edema pós-injeção de AH nos lábios é fisiológico e previsível — não é indicativo de complicação nem representa o resultado final do procedimento.[2]
Preenchimento labial repetido ao longo de anos acumula produto?
A questão do acúmulo de AH residual após preenchimentos repetidos é tema de investigação crescente na literatura. Estudos de ultrassonografia de alta resolução identificaram depósitos residuais em pacientes com histórico prolongado de preenchimentos — às vezes em volumes superiores ao injetado nas últimas sessões. Esse acúmulo pode ser clinicamente assintomático ou se manifestar como assimetria progressiva. A avaliação por ultrassonografia antes de cada novo procedimento em pacientes com longo histórico é recomendada por consensos internacionais recentes.[18]
O que é G-Prime em preenchedores labiais?
G-Prime (G’) é o módulo de elasticidade do gel — a medida de sua rigidez elástica. Em preenchedores labiais, G-Prime baixo resulta em produto que acompanha os movimentos naturais dos lábios com menor resistência, favorecendo resultados mais naturais. G-Prime alto oferece mais sustentação e projeção, mas pode comprometer a mobilidade labial se mal indicado. A escolha do G-Prime adequado é um dos critérios mais importantes para o resultado estético e funcional do preenchimento labial.[5]
Dentistas podem realizar preenchimento labial no Brasil?
Sim. O Conselho Federal de Odontologia reconhece a Harmonização Orofacial como especialidade odontológica pela Resolução CFO-198/2019, autorizando cirurgiões-dentistas habilitados a realizarem procedimentos na região orofacial, incluindo preenchimento labial com ácido hialurônico. A formação especializada e a habilitação formal são os critérios determinantes para qualquer profissional da saúde que realiza o procedimento.
É possível reverter o preenchimento labial?
Sim. A hialuronidase enzimática degrada o AH reticulado de forma eficaz — na maioria dos casos, uma única sessão é suficiente para reversão parcial ou total. O procedimento tem sua própria curva de aprendizado técnico e não é isento de riscos (reação alérgica à hialuronidase é descrita, embora rara). A reversibilidade do AH é sua principal vantagem sobre todos os demais materiais de preenchimento disponíveis.[3]
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Referências
1. Necas J et al. Hyaluronic acid (hyaluronan): a review. Veterinarni Medicina. 2008;53(8):397–411.
2. Cotofana S et al. The anatomy of the aging face: a review. Facial Plastic Surgery. 2016;32(3):253–260.
3. International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Global Statistics. 2023 Annual Report. Disponível em: isaps.org.
4. Kablik J et al. Comparative physical and chemical properties of commercial hyaluronic acid dermal fillers. Dermatologic Surgery. 2009;35(Suppl 1):302–312.
5. Sundaram H, Cassuto D. Biophysical characteristics of hyaluronic acid soft-tissue fillers and their relevance to aesthetic applications. Plastic and Reconstructive Surgery. 2013;132(4 Suppl 2):5S–21S.
6. Fagien S et al. Understanding and using hyaluronic acid fillers in facial rejuvenation. Plastic and Reconstructive Surgery. 2019;143(5):1248e–1260e.
7. Stocks D et al. A clinical comparison of hyaluronic acid dermal fillers with different cross-linking technologies. Journal of Drugs in Dermatology. 2011;10(9):1062–1067.
8. Edsman KLM et al. Hyaluronic acid gel modification: physical characterization of cross-linked hyaluronic acid fillers. Dermatologic Surgery. 2012;38(7 Pt 2):1170–1179.
9. Raspaldo H et al. Lip enhancement and remodeling: new perspectives with Vycross technology. Journal of Cosmetic Dermatology. 2013;12(2):157–163.
10. Öhrlund Å et al. Characterization of hyaluronic acid fillers: comparison of the rheological properties, water content and degradability. Journal of Mechanics in Medicine and Biology. 2019;19(1):1950008.
11. Tran C et al. In vivo fate of cross-linked hyaluronic acid filler in the lips. Dermatology. 2014;228(1):47–54.
12. Micheels P et al. Resilient hyaluronic acid fillers for the dynamic facial area: a review. Dermatologic Surgery. 2021;47(Suppl 1):S13–S18.
13. U.S. Food and Drug Administration (FDA). Dermal Fillers (Soft Tissue Fillers) — Safety Communication. 2020. Disponível em: fda.gov/medical-devices.
14. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Dados de procedimentos estéticos no Brasil. Relatório Anual 2023.
15. Cotofana S, Lachman N. Anatomy of the facial fat compartments and their relevance in aesthetic surgery. Journal of Anatomy. 2019;235(1):1–12.
16. Pavicic T et al. Filling techniques in tear trough treatment. Journal of Cosmetic Dermatology. 2016;15(4):595–604.
17. DeLorenzi C. Complications of injectable fillers, part 2: vascular complications. Aesthetic Surgery Journal. 2014;34(4):584–600. | Funt D, Pavicic T. Dermal fillers in aesthetics: an overview of adverse events and treatment approaches. Plastic Surgery International. 2013;2013:198519.
18. Wollina U, Goldman A. Hyaluronidase in aesthetic dermatology. Dermatologic Therapy. 2021;34(4):e14900. | Bertossi D et al. Ultrasound evaluation of hyaluronic acid accumulation in aesthetic patients. Aesthetic Plastic Surgery. 2019;43(3):821–828.
